sábado, 28 de janeiro de 2012

Madame Butterfly

"Sou uma bêbada fodida!" Repito isso a mim mesma todas as manhãs, em frente ao espelho. Vou até o armário, visto o meu personagem e me anestesio na fantasia de um copo de vodka, tudo isso ao som de Madame Butterfly. A música não para e enquanto isso, vejo as pessoas falando... Elas mexem os lábios, gesticulam, mas eu não as escuto. Faz tempo que me recuso a escutar o que dizem, me tornei uma ignorante e é por isso que ela não pode ficar.

Pra ela eu não consigo mentir, não consigo representar, é uma ameaça ao contexto de toda uma obra. Ela não sabe bem o que sou, mas sabe o que eu não sou e eu não sou uma bêbada fodida. Digo a ela " eu não quero ser salva" e ela me diz " mas você não precisa ser." Então me beija quando tento deixa-lá, me olha o fundo da alma e me toca com a certeza da minha incapacidade, da minha impotência quando usa o seu corpo. Por isso preciso que ela me deixe, antes que eu deixe de ser.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Aquele cantinho da "felicidade"

Fui pra casa mais cedo aquele dia e fiquei por horas olhando fotos antigas, saudosas. Chorei durante toda aquela noite e pensei no que me esperava ao voltar, o que falaria com meu pai? Somos completos desconhecidos um para o outro, sempre fomos na verdade.

Chegando em "casa", permaneci muda, presa nas paredes do quarto, nas fotos da minha infância e nas lembranças doloridas que tudo aquilo me provocava. Dei uma volta pela casa, pelo quintal... Ainda não tinha revisto tudo. No canteiro a planta da felicidade murcha, seca, com uma plaquinha velha, quase apagada que dizia: “Somos felizes”. Mas será que somos? Será que algum dia já fomos? Não sei. 

Nada é igual a como era antes, mas eu insisto em agir como se isso não me afetasse... Será? Porque eu ainda choro e então me dizem que o tempo cura tudo... Mas será que cura mesmo? Porque eu ainda bebo pra esquecer que não sou a mesma e que tudo ainda anda meio fora de lugar.