sábado, 26 de novembro de 2011

Piaf

Depois do pouco que dormi hoje, já com o dia claro, eu ouço Piaf enquanto assisto a desgraça da minha vida. Não sei ao certo porque, mas ouvir Piaf nesses momentos é como um anestesíco, eu tenho consciência do pior enquanto danço entorpecida pela música. Acho que no fundo eu penso: “ se é pra sofrer, então que seja em grande estilo.” Nada comigo é pouco e se for, eu faço grande, dou meu jeito.

domingo, 20 de novembro de 2011

Enquanto ela dormia.

Enquanto ela dormia, eu lembrava de todas aquelas coisas malucas dela, coisa de velho, ela dizia. Ela sempre foi do tipo de pessoa que me atrai, que me interessa, nunca foi muito normal.

Sabe, sempre que eu chego lá, ela nunca me oferece um café, ou um copo de água, ela sempre diz: “ come uma bananinha, Nina.” Desde que me entendo por gente, sempre que vou lá é assim. Ela até separa umas pra eu levar pra casa depois, nunca entendi, nem muito menos perguntei por que, eu só fazia e depois de um tempo até ficava esperando por isso. Não pelas bananas em si, mas pelo som da voz dela já fraquinha dizendo: “ Leva essas aqui, ó!” Em anos ela nunca mudou de fruta, sempre bananas. Talvez ela ache que são minhas favoritas e eu nunca diria o contrário.

Nos almoços de domingo, sempre aquela carne assada, que embora repetida religiosamente, somente aos domingos é a melhor que já comi, assim como o bolo de cenoura na hora do lanche que sempre foi respeitada, mesmo depois que eu já nem saia mais de casa pra correr que nem um moleque de rua na porta, enquanto ela gritava horrores meu nome todo quando ficava brava comigo: “ Ana Carolina! Ana Carolina! Vem lanchar garota!” E quando eu chegava bem pertinho ela resmungava: “ Toda suja, parece um moleque. Vai já lavar essas mãos!”

São tantas coisas pra lembrar... Enquanto ela dormia era só essa saudade imensa que eu sentia. 

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Simples assim.

A primeira vez que a vi, acho que foi aquele sorriso que me chamou atenção, o jeito como ela aperta os olhos ... Parece que eles tão sorrindo juntos, é lindo, algo difícil de descrever.

Depois acho que foi a coragem por ela ter ido adiante mesmo sabendo o quão ruim eu quero ser, o quão sem emoções ...Eu fiz e falei, mas ela continuou ali sorrindo, achando tudo aquilo absolutamente normal, compreensível e então eu me vi invertida.

Como se não bastasse não me cobrar, não ter medo de mim, não me achar a criatura mais detestável do mundo, só mais uma bêbada fodida na tentativa desesperada de foder as pessoas por puro egoísmo, só pra não se sentir sozinha nessa magoa, como se não bastasse não me olhar desse jeito, ela deita ao meu lado e entre beijos, me diz que quer tomar uma cerveja. Sempre que dá então, tomamos uma cerveja junto e eu fico lá admirada enquanto ela fala, bebe, sorri e tenta derrubar minhas teorias zombando de mim, me fazendo parecer boba. De repente eu fico pensando, me sentindo sortuda, afinal de contas eu nunca conheci uma garota que pudesse transar e beber comigo, como se essas duas coisas não pudessem estar contidas em uma só pessoa, nunca entendi muito bem, enfim...

Enquanto as outras tentam me mudar ou moldar, ela não, e só tenta derrubar minhas teorias por pura implicância, porque sente prazer em me desmontar, em me ver sem argumentos suficientes. E eu que tinha me trancado, e eu que era triste, hoje acho graça quando me pego em mercados provando pra ela que eu sei diferenciar sim, o brócolis da couve -flor. 

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A moça.

Parecer forte é fácil, realmente ser é pra poucos. Em tempos difíceis, eu tento pelo menos e faço isso enquanto encho a cara pra afogar minhas magoas, reclamar da vida... Que piada né?!

Pior que isso é, as pessoas não perceberem que você está gritando socorro a cada cinco minutos que diz não precisar de ninguém. Mas que saber? Foda-se!

Me acostumei a viver sem dividir, sem me importar. Minha expressão mudou, meus gestos, o discurso... Mas será? Então um dia apareceu aquela moça, sorriso largo, mas olhos tristes. Ela olhava tudo de baixo pra cima e a cada sorriso um apelo, mas nem ela sabe.

Eu quis saber e me assustei, dei um passo a frente em direção a ela e em seguida me acovardei. Achei melhor manchar minha boca com outro batom, um que não me oferecesse perigo, um que não me interessasse ... Não adiantou! Quando ela olhou finalmente direto nos meus olhos, olhou por dentro e eu sabia que ela tinha visto quase tudo pulsando, ela notou que tinha vida. Teimei em repetir que estava morta em uma tentativa desesperada de proteção, mas do que? Ela ouvia com atenção e ás vezes achava graça, acho que da minha estupidez, provavelmente.

Fui pra casa e a moça comigo, me perturbando a ponto de me fazer criar pequenos diálogos comigo mesma onde meu “eu” racional dizia: É só mais uma garota, que drama! Acontece que não era! Ela me beijou e eu fiquei apavorada, quis abraça-la. Então recomeçava o dialogo, dessa vez intenso :

- Sai daí agora!
- Mas eu não quero ...
- Depois não reclama!

Depois disso, acordei ao lado dela. Eu a ouço com atenção e a desejo intensamente, enquanto ela brinca de me provocar como se estivesse testando estímulos, reações. Enfim me vi com medo de estar sem medo, porque a moça de repente  veio e ficou.